
Missão técnica confirma o papel de liderança do Brasil no Protocolo de Montreal e fortalece a agenda nacional para a redução de HFCs.
A missão técnica da Secretaria do Fundo Multilateral para a Implementação do Protocolo de Montreal chegou ao Brasil em um momento decisivo para o avanço da Emenda de Kigali, reforçando a cooperação internacional e permitindo observar de perto resultados de projetos apoiados pelo Fundo em Brasília, Curitiba e São Paulo.
Durante a agenda em São Paulo, a equipe do PNUD conversou com Alejandro Ramirez‑Pabon, Senior Programme Officer da Secretaria do Fundo Multilateral, sobre o protagonismo do Brasil na transição para tecnologias de refrigeração sustentáveis e os avanços do país na preparação para implementar a Emenda de Kigali. Para Alejandro, visitas como esta são essenciais para compreender os desafios enfrentados por governos, empresas, associações e centros de formação, além de identificar oportunidades para tornar ainda mais eficiente o processo de eliminação de HCFCs e redução de HFCs.
Alejandro Ramirez‑Pabon é Senior Programme Management Officer da Secretaria do Fundo Multilateral, especialista na revisão de propostas de financiamento e no desenvolvimento de políticas operacionais para países do Artigo 5. Engenheiro industrial com MBA pelo IESE Business School, Alejandro acumula mais de 25 anos de experiência na implementação do Protocolo de Montreal, atuando tanto em nível nacional, na Unidade Nacional de Ozônio da Colômbia, quanto internacionalmente, com passagens pelo UNEP OzonAction, pelo UNDP Montreal Protocol Unit e, há 12 anos, pela Secretaria do Fundo Multilateral. Seu histórico inclui a elaboração de mais de 150 avaliações, análises técnicas e documentos de políticas que subsidiaram decisões do Comitê Executivo. Confira a seguir os principais trechos da entrevista concedida ao PNUD Brasil durante a missão técnica.
Como o Fundo Multilateral apoia países na transição para tecnologias de baixo impacto climático
A Secretaria do Fundo Multilateral é responsável por estabelecer as diretrizes de financiamento e revisar os projetos apresentados pelos países para eliminar substâncias controladas e reduzir o consumo de HCFCs e HFCs. Visitas como esta são essenciais para compreender, diretamente no campo, os desafios enfrentados pelos setores de refrigeração e ar‑condicionado, pelos governos, pelas associações e pelos centros de formação. Observar de perto as realidades nacionais permite avaliar como os projetos estão sendo implementados, identificar oportunidades de eficiência energética e adoção de tecnologias de baixo potencial de aquecimento global e, ao mesmo tempo, orientar o desenho de políticas futuras de financiamento, garantindo que respondam de forma efetiva às necessidades dos países.
A transição para tecnologias de baixo impacto climático no setor da refrigeração desponta como uma das questões mais relevantes desta década devido ao crescimento acelerado da demanda global por serviços de resfriamento. Com base no Global Cooling Watch Report (Google, 2023), a capacidade de refrigeração instalada em países do Artigo 5 deve quadruplicar entre 2022 e 2050, um aumento que, se não for acompanhado por tecnologias eficientes e de baixo GWP, resultará em emissões diretas e indiretas significativas. Essa expansão exige uma abordagem ampla: além de reduzir HFCs, é preciso integrar ganhos de eficiência energética, repensar o design de equipamentos e investir em soluções como passive cooling. O avanço da refrigeração sustentável representa uma oportunidade crítica para reduzir emissões, fortalecer cadeias de frio emergentes e ampliar o impacto ambiental positivo das ações apoiadas pelo Fundo Multilateral.
Os desafios que moldam o futuro da refrigeração de baixo GWP no Brasil
Um dos principais desafios para a implementação da Emenda de Kigali no Brasil está relacionado ao manejo de dados e ao entendimento preciso dos fluxos de importação. A complexidade do cenário atual decorre não apenas da variedade de substâncias controladas, mas também do fato de que muitas alternativas utilizadas hoje são misturas que contêm outros gases controlados. Compreender esse “mapa de fluxos” e garantir que as informações sejam completas e consistentes é essencial para fundamentar decisões técnicas e regulatórias.
O setor de serviços também representa um desafio significativo. Embora o Brasil já tenha estabelecido parcerias importantes durante as etapas de eliminação de HCFCs, replicar esse nível de articulação para o controle de HFCs exige continuidade, ampliação da formação técnica e integração entre governo, indústria e centros de capacitação. A pandemia adicionou outra camada de complexidade: o consumo caiu artificialmente e depois voltou a crescer, dificultando a leitura de padrões e a projeção de cenários de demanda.
Outro ponto crítico é a disponibilidade de componentes e alternativas de baixo GWP no mercado global. Em muitos casos, essas substâncias e equipamentos ainda são difíceis de adquirir, o que reforça a importância de compreender a cadeia de distribuição, área na qual o Brasil possui vantagem, justamente por ser um mercado grande e capaz de influenciar padrões e direcionamentos tecnológicos na região.
A comunicação e a disseminação de informação para usuários e técnicos surgem como desafios igualmente centrais. A adoção de novas tecnologias depende de consumidores bem-informados, capazes de compreender os benefícios de equipamentos eficientes e de baixo impacto climático. Como muitos termos técnicos não fazem parte da rotina do usuário final, traduzir esse conhecimento para uma linguagem prática e acessível é fundamental.
Parcerias, governança e inovação: os pilares do sucesso brasileiro na agenda Ozônio‑Clima
O Brasil possui bases sólidas para avançar na implementação da Emenda de Kigali. Um dos principais destaques é a atuação conjunta do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e do IBAMA, cuja coordenação estreita tem sido fundamental para o desenvolvimento de normas e para o controle de substâncias, garantindo segurança regulatória e alinhamento entre políticas públicas e demandas do setor produtivo.
Outro ponto de destaque é a força das parcerias estabelecidas entre governo, setor privado e centros de formação profissional. O setor de manufatura e serviços no Brasil demonstra maturidade técnica e organizacional, com destaque histórico para o setor de espumas, no qual a eliminação completa de HCFCs já foi alcançada e diversos projetos bem-sucedidos servem de modelo para outras áreas.
O país exerce papel estratégico nas negociações internacionais. O Brasil participa ativamente das discussões no âmbito do Comitê Executivo, trazendo contribuições relevantes para debates sobre financiamento, desenho de projetos e soluções inovadoras para implementação de Kigali, incluindo inventários de substâncias controladas, análises de ciclo de vida de refrigerantes e projetos-piloto de eficiência energética para os setores de serviços e manufatura. Nesse sentido, o Brasil tem condições não apenas de resolver seus próprios desafios, mas de se tornar um modelo de referência para outros países do Artigo 5, gerando resultados positivos para toda a região.
Como a missão contribui para ações futuras e consolida o papel estratégico do Brasil
Um dos principais resultados da missão foi a oportunidade de compreender diretamente, a partir dos atores envolvidos, os desafios enfrentados na implementação das ações de eliminação de HCFCs e de redução de HFCs. Esse olhar em campo fornecerá insumos valiosos para o aprimoramento de futuras políticas de financiamento, garantindo que o apoio do Fundo Multilateral chegue onde é mais necessário e produza o impacto desejado. Para o Brasil, a aprovação do seu Programa Brasileiro de Redução do Consumo dos HFCs (Programa HFCs) representará um ponto de inflexão decisivo na execução da Emenda de Kigali. O que pude observar ao longo da visita, tanto na estratégia elaborada pelo Governo quanto no trabalho das agências, que demonstraram que o país segue na direção correta e consolidará um papel fundamental na implementação da Emenda em nível global.






